‘Bico-de-papagaio’ é associado a distúrbios auditivos em estudo

Tese da FCM demonstra que espondilose cervical promove diminuição do fluxo da artéria vertebral

untitledDoença: espondilose; o que envolve: alterações degenerativas inespecíficas da coluna vertebral; onde aparece: são mais comuns nas porções móveis, como as regiões cervical e lombar, e menos nas porções rígidas, como a região dorsal. A espondilose é a doença reumática mais comum nos dias de hoje, apelidada com o nome popular de “bico-de-papagaio”. Mundialmente 60% da população com mais de 45 anos de idade é atingida pela enfermidade e 86% é acometida entre os 70 e 79 anos.

Ela é compreendida pela comunidade científica como um desgaste natural da vértebra, que diminui o disco articular e, desta forma, permite que um osso fique atritando literalmente com o outro. Aos poucos se forma – na parte posterior das vértebras – uma protuberância semelhante a um bico recurvado dessa ave. Daí o motivo dessa denominação.

Em pesquisa de doutorado realizada na Faculdade de Ciências Médicas (FCM), a fisioterapeuta Elizângela dos Santos concluiu que a espondilose cervical especificamente promove uma diminuição significativa do fluxo da artéria vertebral, desencadeando distúrbios auditivos em seus portadores.

O trabalho mostrou uma íntima relação entre espondilose cervical e frequência de sinais e sintomas auditivos para 81,4% dos casos avaliados, de uma amostra de 102 indivíduos que faziam parte de um grupo da terceira idade da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), em Minas Gerais. Eles relatavam hipoacusia (surdez), vertigens e zumbidos em consequência da interrupção da circulação sanguínea na coluna, a qual se responsabiliza por irrigar o sistema auditivo.

Não obstante esse achado, a autora da tese sugeriu novas investigações que abordem em maior profundidade ainda a provável etiologia da doença que é, ainda hoje, entendida como predominantemente vascular – seja por estimulação do sistema simpático, seja pela presença de ateromas (placas) nas artérias, por compressão das mesmas pelo bico-de-papagaio. Assim, as células sensoriais de órgãos como a cóclea e o vestíbulo padecem de isquemia.

A hipótese da doutoranda era de que, quanto maior o bico-de-papagaio, maior seria a interrupção do fluxo sanguíneo. E tal hipótese se confirmou principalmente do lado direito da vértebra, coincidentemente o lado em que a artéria vertebral é mais calibrosa em termos anatômicos.

Ela ainda averiguou que o fluxo arterial vertebral direito foi menor em todos os casos estudados, sendo essa diminuição de 15,76% em pacientes com a situação auditiva considerada deficitária contra 7,5% do lado esquerdo. Em pacientes com zumbidos, essa diminuição do lado direito foi de 2,65% contra 0,72% do lado esquerdo. Em indivíduos com tontura, a diminuição do lado direito foi de 8,4% contra 5,86% do lado esquerdo.

Apesar dessas alterações não terem sido significativas, salientou a pesquisadora, indicaram uma redução do fluxo arterial vertebral principalmente do lado direito de portadores de espondilose, mesmo não tendo sido estabelecida definitivamente uma relação dessa diminuição com possíveis sinais e sintomas otológicos.

O estudo também apontou uma correlação mais frequente de tontura em pacientes com zumbido. Nessa amostra, eles eram mais jovens, o que diferiu de achados encontrados em outras publicações.

Dor

O bico-de-papagaio é facilmente diagnosticado pelo médico quando ocorrem calcificações nas cartilagens que envolvem as vértebras e os ligamentos. Elas são capazes de determinar um estado de desequilíbrio, sinalizando que os raciocínios otoneurológico e reumatológico são de suma importância tanto para a conclusão diagnóstica quanto para o tratamento a ser estipulado.

“Também enfatizamos a necessidade de apurar melhor os graus mais severos da doença, levando em conta sinais ou sintomas que possam ir além dos quadros de dor e de limitação da mobilidade”, afirmou Elizângela dos Santos. É que na verdade são muito recorrentes queixas de dor na anamnese dos portadores de espondilose cervical. Foram inclusive desvendadas na casuística anormalidades objetivas em 52% deles.

Observou-se que o medo passa a limitar mais a vida desses pacientes, com repercussões negativas nas atividades domésticas, conforme a fisioterapeuta, cuja pesquisa foi orientada pela docente e reumatologista da FCM Simone Appenzeller.

“Geralmente desanimados após buscarem vários tratamentos e fármacos, sem ter alívio para esse mal e sem saber o que está havendo, eles vão se tornando cada vez mais deprimidos e isolados socialmente”, dimensiona a estudiosa. Esses pacientes sofrem dores que agem produzindo um certo formigamento nos membros superiores.

A doutoranda percebeu essa situação e começou a observar que os pacientes que atendia em clínica privada vinham sempre com queixas de coluna e que isso não se tratava de um fato isolado. Tais queixas apareciam associadas grande parte das vezes aos problemas auditivos. Mas essa suspeita não tinha sido comprovada e poucos artigos científicos relacionavam os dois aspectos na literatura.

Desde a sua pesquisa de mestrado, no entanto, ela já tinha notado essa relação e, no doutorado, deu um passo maior nessa direção: buscou compreender por que essa problemática estaria ocorrendo.

Os pacientes avaliados tinham idade acima de 30 anos, visto que normalmente a deformação aparece em indivíduos indistintamente de sexo por volta dos 50 anos. Ocorre que ela também pode se manifestar em pessoas mais jovens, quando expostas a alguns dos fatores de risco, que são, além da idade (que é o principal fator), hereditariedade, má postura, obesidade, sedentarismo e fraturas, os quais contribuem para desgastar as articulações e levar à calcificação das vértebras.

Elizângela dos Santos comentou que, normalmente, quando se formulam as impressões diagnósticas, as primeiras suspeitas recaem sobre a síndrome vertebrobasilar ou sobre a síndrome de Barré-Lieou, síndromes da coluna cervical que causam sintomas auditivos. “Os pacientes com espondilose mostraram sintomas semelhantes a esses casos”, mencionou a doutoranda.

Degeneração

As doenças degenerativas na região cervical, como por exemplo a espondilose, são muito comuns mundialmente e sua prevalência aumenta com a idade. Quase metade da população apresenta cervicalgia em algum momento da vida, que se trata de uma contratura muscular no pescoço, habitualmente assimétrica, desviando a posição da cabeça para o lado mais acometido.

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A dor cervical também é a segunda causa mais incidente de consulta nos serviços primários de saúde do mundo inteiro, ficando atrás unicamente das dores lombares. “Aproximadamente 70% a 80% da população sofre de alguma dor incapacitante na coluna ao longo da vida”, recordou Elizângela dos Santos.

Elas acontecem sobretudo no disco vertebral e, gradualmente, aparecem neoformações ósseas nestas áreas, chamadas osteófitos (crescimento anormal do osso), podendo resultar em um estreitamento do forâmen neural (abertura por onde as raízes saem da coluna e se dirigem ao restante do corpo).

É uma estratégia de defesa do organismo para absorver a sobrecarga das articulações e estabilizar a coluna vertebral, pois deformações ao longo da margem dos corpos vertebrais e do ligamento longitudinal posterior podem causar compressão da medula espinhal.

A prescrição de procedimento cirúrgico deve ser feita como último recurso. Segundo a autora da tese, a decisão precisa ser bastante ponderada, dado que estruturas da coluna cervical demandam uma intervenção bastante meticulosa.

Por outro lado, fisioterapia e exercícios de alongamento têm se mostrado eficazes em diminuir a dor e a compressão pelo bico-de-papagaio. Muitos pacientes atualmente lançam mão da técnica de pilates, que se mostra bastante responsiva. “Entretanto, somente tomam essa decisão quando a dor aumenta. Já atendi muitos casos com dor absurda e com múltiplos bicos-de-papagaio em toda coluna vertebral”, relembrou ela.

Mas além do desgaste natural dos discos intervertebrais próprio da idade e da predisposição genética, da má postura, da obesidade e do sedentarismo, traumas anteriores sofridos na coluna podem igualmente estar associados ao aparecimento da lesão. “Os homens são mais atingidos com artrose de coluna e as mulheres com artrose na região cervical”, destacou a pesquisadora.

Publicação
Tese: “Espondilose cervical: manifestações clínicas e achados na ultrassonografia das artérias vertebrais”
Autora: Elizângela dos Santos
Orientadora: Simone Appenzeller
Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM)

FONTE: Jornal da UNICAMP
http://www.unicamp.br/

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